François Rabelais no “Ciranda da Arte”

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O próximo dia 28 de fevereiro assinala no calendário a data oficializada para a comemoração do carnaval, talvez a mais brasileira de todas as festas. De forma bastante curiosa, porém, essa expressão festiva não nasceu no Brasil. Nem os estudos culturais alusivos a ela. Como o futebol, que também não surgiu por aqui, o carnaval ganhou uma performatividade tupiniquim que a cada ano parece renovar-se em expressões caleidoscópicas que se mostram inexauríveis.

Um dos mais importantes estudiosos sobre o processo carnavalesco, que estendeu o próprio termo ao universo dos estudos literários e linguísticos, é o russo Mikhail Bakhtin, cuja produção intelectual, até hoje estudada nos meios acadêmicos, deu-se mais intensivamente na primeira metade do século passado, chegando ao nosso país nas últimas décadas do milênio anterior.

Em “Problemas da Poética de Dostoiévski”, Bakhtin apresenta conceitos da teoria do conhecimento literário, como polifonia (muitas vozes discursivas na obra literária), sedimentando, por sua vez, o conceito de carnavalização que já aparece delineado em sua tese de doutoramento intitulada “A Cultura Popular na Idade Média e No Renascimento: O Contexto de François Rabelais”.

Dividida em sete capítulos, a tese bakhtiniana sobre Rabelais explora os problemas apontados pelo cronista do medievo em seus clássicos “Gargântua” e “Pantagruel”, narrativas que bordejam pelo fantástico para satirizar o modo de vida das classes sociais do período em que o autor viveu, o século 16. “Gargântua” e “Pantagruel” se inserem, pois, no âmbito da leitura alegórica medieval a que se refere Umberto Eco em seu importante ensaio de estética sob o título de “Obra Aberta”.

Conforme o intelectual italiano, a Idade Média desenvolveu a concepção da leitura em níveis diversos. Assim, um texto pode ser lido no sentido literal, alegórico, moral e anagógico. O sentido alegórico, por exemplo, compõe-se de uma série de imagens simbólicas, representativas de uma dada realidade através de um processo fluido de significados. Dessa forma, os gigantes glutões de François Rabelais, Gargântua e Pantagruel, simbolizam deglutições culturais de um dado contexto. No caso, do medievo. Não se trata meramente de deglutir alimentos físicos, mas sim culturais. É o que se infere, ainda, dos apontamentos de Bakthin em sua tese sobre o célebre ex-padre, que se torna humanista, François Rabelais.

No dia 09 de fevereiro de 2017, o Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduce-GO, em parceria com o Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Performances Culturais da Universidade Federal de Goiás, promove a oficina “Alegrias, Teatro e Alegorias: Pantagruel e Rabelais”. Ministrada pela educadora Ingrid Koubela, a atividade apresenta em sua proposta o estudo em torno do gesto teatral em sua multifacetada perspectiva que engloba as demais manifestações artísticas, como a dança, a música e a literatura.

Em consonância com o que é apresentado no título da oficina a ser realizada no “Ciranda da Arte”, Mikhail Bakthin cita em sua tese sobre Rabelais os apontamentos de um dos estudiosos do autor medieval que bem poderiam servir de justificativa para a sessão de Ingrid Koubela: “Em ‘Pantagruel’ o riso é ao mesmo tempo tema e argumentação. É preciso restituir ao leitor a faculdade que o sofrimento lhe tirou, a faculdade de rir. Ele deve retornar ao estado normal da natureza humana, a fim de que a verdade lhe seja revelada. Cem anos mais tarde, para Spinoza, o caminho da verdade passa pela liberação dos sentimentos do sofrimento e da alegria”.

Assim, a oficina “Alegrias, Teatro e Alegorias: Pantagruel e Rabelais” apresenta uma interessante correspondência com o espírito carnavalesco desse período do ano. Acrescente-se, todavia, que a prática a ser realizada transcende a perspectiva carnavalizante, caracterizando-se ainda como um momento de performance artística e cultural que se pode adivinhar bastante enriquecedor do ponto de vista da cultura.

Em “Cultura Popular na Idade Média”, o historiador Peter Burke assinala o momento da carnavalização como um ponto de interseção em diversos momentos entre a cultura erudita e a popular, quando os estratos sociais se encontravam para comungar elementos culturais de uma ou de outra camada, o que se revelou  culturalmente bastante salutar. Ao trazer Rabelais a uma oficina pedagógica, Ingrid Koubela realiza, grosso modo, uma performance cultural análoga ao etos do que é assinalado por Peter Burke, oferecendo um banquete de cultura ao público como um todo, o que é uma das propostas de atividades do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte.

 

GISMAIR MARTINS TEIXEIRA – Doutor em Letras pela Universidade Federal de Goiás; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduce-GO.  

 

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