A arte-educação goiana em olhares acadêmicos

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março 1, 2021

No ano de 2015, a Organização Mundial das Nações Unidas-ONU realizou a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável em sua Assembleia Geral. Nessa reunião, 193 países, dentre os quais o Brasil, tornaram-se signatários dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), uma proposta ousada de avanços de sustentabilidade em praticamente todas as áreas em que a humanidade tem se comportado de maneira predatória em relação ao meio ambiente como um todo. Uma das molas propulsoras para a aplicação prática das iniciativas do organismo mundial é a educação em toda a sua plenitude conceptual e voltada para o bem-estar do ser humano em integração com o hábitat que o cerca.

Em Goiás, o governo mobilizou diversas pastas para o desenvolvimento e a aplicação de projetos ligados aos 17 ODS. A Secretaria de Estado da Educação delegou ao Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, na pessoa de sua então diretora e fundadora, Luz Marina de Alcantara, a tarefa de desenvolver ousado projeto que alinhasse os objetivos propostos pela ONU a partir do olhar da educação numa ampla abordagem. Com 15 anos de experiência na área da arte-educação, o Ciranda da Arte se pôs a campo para a execução de importante projeto que daria origem na região Área de Proteção Ambiental de Pouso Alto, no nordeste goiano, em Alto Paraíso de Goiás, ao Instituto de Pesquisa, Ensino e Extensão em Arte-Educação e Tecnologias Sustentáveis (Ipeartes).

A cidade de Alto Paraíso, bem como toda a região, é caracterizada por uma intensa atividade voltada para o ecoturismo associado a uma espiritualidade alternativa à ortodoxia das religiões, recebendo imigrantes de todo o mundo. Sob a perspectiva, pois, das propostas constitutivas dos 17 ODS, o Ipeartes foi criado no ano de 2016 e leva a toda a região da APA Pouso Alto um olhar revigorado sobre a educação para a cidadania em uma região social e economicamente necessitada sob diversos aspectos.

DOIS OLHARES ACADÊMICOS
Em sua década e meia de existência, o Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte já se tornou referência na arte-educação em todo o estado e no Brasil, merecendo o reconhecimento, ainda, de pesquisadores internacionais que atuam no campo da arte-educação. O Instituto de Pesquisa, Ensino e Extensão em Arte-Educação e Tecnologias Sustentáveis-Ipeartes segue, agora, caminho semelhante. O corpo docente e diretivo de ambas as instituições conta com um quadro de profissionais de excelente formação, que tem levado o fruto de suas pesquisas em ambas as instituições ao universo da academia tanto no Brasil quanto no exterior.

Em seu último número, por exemplo, a Revista Digital do Laboratório de Artes Visuais da Universidade Federal de Santa Maria publicou o artigo “Polifonia sobre um quartzo de cristal: a educação do bem viver”, de autoria da Dra. Luz Marina de Alcantara em coautoria com pesquisador do campo das letras. Nesse trabalho, a criadora do Ipeartes apresenta uma pesquisa de cunho etnológico, no âmbito da antropologia, em que relata todo o percurso desenvolvido na aproximação etnográfica e na pesquisa-ação para lançar as bases da instituição que representa a materialização de um dos ODSs da Organização das Nações Unidas para a educação.

No corpo de seu trabalho, que pode ser lido no link, a autora relata as dificuldades e as peculiaridades culturais que tiveram de ser vencidas para que o projeto tivesse o seu início e desenvolvimento, culminando em sua estratificação definitiva no contexto educacional da região, que já não pode prescindir da prática pedagógica e dos projetos que têm sido desenvolvidos em toda aquela área marcada por singularidades culturais e antropológicas. Relacionando a arte à educação, afirma a autora na conclusão de seu artigo científico: “A Educação do Bem Viver flui dos pilares que sustentam a arte na educação integral que se desdobra na produção de uma consciência crítica e de transformação social”.

No ano que ora se inicia, o Instituto de Pesquisa, Ensino e Extensão em Arte Educação e Tecnologias Sustentáveis-Ipeartes completará cinco anos de existência. Das dificuldades apresentadas por Luz Marina de Alcantara em seu trabalho publicado na revista da Universidade Federal de Santa Maria até o presente momento, muitas atividades e projetos voltados para a educação do bem viver foram implementados. A dinamização do EJA – Educação de Jovens e Adultos pelo Ipeartes, através da execução de projetos educacionais, por exemplo, configura importante momento nessa prática.

Acerca da integração em Alto Paraíso entre o EJA e o Ipeartes, a revista QuAderns de l’Institut Català d’Antropologia, da Catalunha, Espanha, publicou o artigo “Identidade quilombola e a ativação patrimonial no Povoado do Moinho”. De autoria da Dra. Christiane Ayumi Kuwae, do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, o material é um estudo antropológico de pesquisa-ação que incide sobre o Povoa do Moinho, na cidade de Alto Paraíso, que recebeu o título de quilombo em 2015 pela Fundação Cultural Palmares. A pesquisa-ação se caracteriza, nas palavras de Ayumi Kuwae em seu artigo, que cita os teóricos dessa vertente metodológica, como “um tipo de pesquisa social com base empírica, concebida e realizada em estreita associação com uma ação transformadora, ou resolução de um problema coletivo”.

Atuando junto a projetos do Ipeartes nas aulas do EJA na comunidade Povoado do Moinho, em Alto Paraíso, a pesquisadora pôde observar mediante a sua pesquisa-ação o processo cultural envolvido na identidade quilombola assumida pelos habitantes da região. Em suas palavras: “apresentamos algumas reflexões teóricas sobre a recente certificação deste território como quilombo, sobre o que está em jogo na assunção da identidade quilombola e sua possível contribuição para o desenvolvimento de um comércio justo dos produtos locais, além da importância do acesso à educação formal para seus moradores”.

O artigo científico da Dra. Christiane Ayumi Kuwae, que pode ser lido na íntegra no link , apresenta, portanto, uma abordagem antropológica bastante significativa em relação a frutos das iniciativas educacionais oriundas da arte-educação goiana, cujas iniciativas vão sendo divulgadas para o Brasil e o mundo. Ambos os trabalhos, publicados em importantes revistas do Brasil e da Europa, representam importante marco na divulgação do projeto arte-educacional que nasceu da preocupação mundial em torno da sustentabilidade.

*Girmair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás; Doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.

 

FONTE: https://aredacao.com.br/artigos/146849/a-arte-educacao-goiana-em-olhares-academicos